terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Leão encontrou Aquário...

 Aquário desejou sair de casa. Estava um pouco cansada da rotina de seus dias e, embora não procurasse algo novo naquele momento, também não descartava a possibilidade de nutrir uma estranha esperança.

Sentada à mesa de um restaurante japonês, ouvia vozes de pessoas a sua volta e logo percebeu que estava sozinha. Olhava o vidro molhado daquela janela fumê. Chovia lá fora.

Leão havia decidido não beber naquele fim de semana. As gotas do calmante prescritas pelo doutor Samuel pareciam fazer algum efeito. Seu corpo estava cansado. Sua saliva já meio acre dos desencontros da vida. Faltava descobrir novos sabores. Faltava muito pouco...

O telefone tocou. Era mais um convite, mais um. Seus amigos esperavam no mesmo bar de sempre. Mas Leão queria novidade. Mas Aquário queria novidade. E todas as pessoas tinham o mesmo rosto. E todas as pessoas tinham o mesmo rosto. E todas as pessoas, o mesmo...

Foi um encontro casual. Leão, finalmente, encontrou Aquário.

Pouco foi dito. Havia uma economia de palavras. Mas talvez o silêncio tenha despertado em Aquário a curiosidade de saber mais sobre Leão.

Foi mágico! Ar e fogo .

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

“Por onde andei?”

Muitas pessoas têm blog porque, de alguma forma, querem usar essa ferramenta com a finalidade de um diário online. Talvez esta tenha sido a minha idéia inicial também. Embora eu não seja apta à regra, ao compromisso de compartilhar as minhas subjetividades, sempre achei sedutor imaginar as sensações que as palavras escritas podem causar naqueles que as lêem.

 Não foi intencional minha ausência, só estava experimentando a vida. Rompi, finalmente, um cordão umbilical que me acompanhava há 32 anos. E é no momento de mudança que podemos mensurar aquilo que conseguimos durante a vida. Tudo coube no lado esquerdo de um quarto vazio. Meu tudo é pouco. E o pouco hoje já não me satisfaz. Quero mais, mais... Mas não (só) bens materiais. Refiro-me, sobretudo, a ter cada vez mais vontade de não perder a vontade, de não perder o encanto nos encontros.

E foi um encontro inesperado, meu quarto!  Uma estrangeira longe de seu país (pais). Eu queria me aventurar nas curvas geométricas do lugar. E me senti preenchida na imensidão daquele vazio. Só quem me conhece compreende o que se esconde atrás desse jogo de palavras.  

Não precisamos ir muito longe, atravessar uma ponte já pode ser suficiente para descobrir um mundo novo do outro lado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"Decifra-me ou te devoro"

Gosto de olhares que me dizem meias verdades.
Tudo que é inteiro tem uma metade.
Aquela escondida entre as quatro paredes do seu pensamento
É justamente a que me interessa.

A parte calada,
A parte fechada,
Aquela que não se revela.

Intriga-me esse jogo de pistas vagas
Onde ninguém se entrega.

Intriga e entrega...

Você não sabe o que eu quero?
“Decifra-me ou te devoro”!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eu gostava do  mistério que se escondia
atrás  do intervalo do seu silêncio.
Da curva perigosa que me fazia acelerar.
Mas depois de tantas noites de insônia,
Depois do pesadelo, eu digo que foi bom acordar.

Eu te falei que tinha medo.
Mas você um dia me fez acreditar.
E de tanto eu tentar fugir
eu me rendi
eu me entreguei
e eu me perdi.

E difícil saber a hora de parar
quando  se perde a noção do tempo.
Quando estamos longe.
Quando não há mais o que tentar.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A ponte engarrafada, os ponteiros que não deixam de girar no relógio da Central. A Rio Branco sempre cheia já nas primeiras horas da manhã.O café na mesma padaria, a passada de olho no jornal da banca enquanto espero o sinal abrir...assim começa o  meu dia a caminho do trabalho. Eu vou devagar, como quem faz hora, como quem não tem pressa de chegar. 
O elevador sobe com os mesmos engravatados de ontem e certamente os de amanhã. São todos iguais. Somo todos iguais? Espero que não...


"Um dia desse
Num desses
Encontros casuais
Talvez a gente
Se encontre
Talvez a gente
Encontre explicação"...

sábado, 11 de junho de 2011

"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar."

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 9 de maio de 2011

" Eu também talvez seja o personagem de mim mesma."

    Minha monografia está engasgada como soluço preso na graganta. Quanto mais eu leio , mais distante fico do lugar de onde já não sei voltar. Não consigo achar relevância no que quero dizer. Já nem sei o que quero dizer, me perdi e não consigo me achar.
   Em  Um Sopro de Vida, quando ela diz- "Estou, por exemplo, querendo escrever sobre uma pessoa que inventei(...)É difícil. Como separá-la de mim? Como fazê-la diferente do que sou?"-me coloca diante daquilo que suspeitava encontrar e que, talvez, seja o grande obstáculo que me impede de  dar um passo adiante. Onde termina a personagem e começa a escritora Clarice Lispector? Nunca fui uma leitora assídua de sua obra, mas o que percebo é que há uma linha tênue que separa realidade e ficção. É claro que, resumir seu trabalho como um projeto autobiográfico seria ,no mínimo, desqualificar todo seu poder de criação. Mas não consigo abandonar totalmente a ideia de que sua vida foi sim, de certa forma, material humano para concepção de suas personagens.
    O filósofo Sartre certa ocasião disse à Simone de Beauvoir que seu desejo era ser um grande escritor e para isso ele precisava experimentar o mundo. Nunca esqueci desta passagem e sempre repito quando estou numa roda de amigos, sentada numa mesa de bar, a minha sede( não de ser escritora), mas de observar o mundo, as pessoas. Acho que Clarice foi não só uma grande observadora dos outros , como de si própria. Por isso entendo quando ela dizia que escrever era uma necessidade, muito mais do que um projeto literário. Daí o fato de ela se sentir incomodada com esse rótulo de escritora. Escrever para ela era uma forma de tentar se descobrir.
   O meu trabalho será falar do olhar de Clarisse sobre o universo infantojuvenil. Cabe agora desobrir como vou costurar essa colcha de possibilidades, entre os contos e livros que abordam essa temática infantil em sua literatura.

                " ------estou procurando, estou procurando.Estou tentando entender".
                                                                                 A Paixão Segundo G. H.

    Acho que é isso. também estou tentando entender. É difícil!