sábado, 3 de março de 2012

Tempo de Travessia



"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
Sim , é tempo de travessia. Deixei as malas pelo caminho, pois o que tinha alí já não era meu. Achei melhor colocar uma mochila vazia nas costas. Assim eu não sinto o peso de uma vida inteira sobre os ombros e posso (re)começar com a certeza de que o novo virá. Porque "tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Hoje estou assim, ora Fernado Pessoa, ora Álvaro de Campos...hoje sou eu e mais outros.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Grande e o Pequeno

Que papel lhe cabe melhor?


"Todo caso de amor tem um grande e um pequeno. Alguém um dia falou, em francês, que em todo caso de amor il y a toujours qui aime et qui se laisse aimer. É mais ou menos a mesma coisa. O pequeno ama, o grande se deixa amar. O grande fala, o pequeno ouve. O grande discorda, o pequeno concorda. O pequeno teme, o grande ameaça. O grande atrasa, o pequeno se antecipa. O grande pede, ou nem precisa pedir, e o pequeno já está fazendo.

Não é uma questão de gênero. Existem homens pequenos e homens grandes, mulheres grandes e mulheres pequenas. O temperamento e as circunstâncias influem, mas não determinam. O grande pode ser o mais bem-sucedido dos dois ou não. O pequeno pode ser o mais sensível, mas nem sempre é assim. Muitas vezes o grande é o mais esperto, mas existem pequenos espertíssimos. Depende do caso. Como ninguém descobriu, até hoje, uma regra que permita determinar qual é o grande e qual é o pequeno, só observando o casal mais atentamente. Na rua, o que anda distraído quase sempre é o grande. Quase sempre, no cinema, o grande só decide comprar pipoca depois que os dois já estão acomodados nas poltronas. O pequeno, então, fica esperando, vigiando, tomando conta para o filme não começar antes de o grande voltar, o que, por algum motivo, seria uma tragédia. Numa festa, o pequeno deve estar ansioso para que a noite seja boa, principalmente se foi ele que sugeriu o programa. O grande se comportará de maneira indiferente até se embriagar pela música, pela bebida ou pelo ambiente, quando então ficará muito mais animado do que o pequeno. Mesmo que o pequeno dance bem, o grande sempre dançará melhor. O pequeno evita o silêncio porque tem certeza de que a culpa é dele, por isso sempre tem arquivados na cabeça assuntos que possam ser úteis em todas as ocasiões. A calça nova do pequeno dificilmente lhe cai tão bem quanto a do grande, assim como o cabelo do grande está sempre melhor que o do pequeno, ainda que a festa inteira pense exatamente o contrário. O pequeno geralmente se comove com a lua calado, enquanto o grande aponta, olha só a lua. No final da festa é sempre o pequeno que quer ir embora, reservando o melhor da sua alegria para o resto da noite, enquanto o grande se despede dos amigos displicentemente. Mais tarde, o pequeno é macho, é gueixa, é desgraçado, é exclusivo e, se o coração do grande por acaso ouvir seus gritos, que sorte. No dia seguinte, o pequeno estará inevitavelmente preocupado: será que fiz tudo certo? Acho que eu não devia ter dito aquilo. Por que toda vez sou eu que beijo primeiro? Na dúvida, vai correndo procurar o grande, apesar de ter prometido que nunca mais faria isso.

O grande e o pequeno podem ser de qualquer espécie, inclusive bichos, com exceção dos gatos, que são todos grandes. Não necessariamente formam um casal. Não é só nas histórias de amor que existem grandes e pequenos. Havendo mais de um, um par qualquer, dois adversários, dois irmãos, dois amigos, sempre haverá o que quer mais e o que quer menos, o fascinante e o fascinado, o generoso e o pedinte. Mas como tudo pode acontecer, senão nada disso ia ter graça, a qualquer momento, por alguma razão, geralmente à noite, imprevisivelmente, o grande pode ficar pequeno, e o pequeno ficar grande de repente. Basta um vacilo, um acaso, um cair de tarde, um olhar mais assim, um furacão, uma inspiração, uma imprudência. Quando isso acontece, é comum o pequeno ficar maior ainda, o que torna automaticamente o grande ainda menor. O ex-pequeno, logo que é promovido a grande, pode se vingar do ex-grande, se seu sofrimento tiver boa memória. Aí, coitado do novo pequeno, vai se arrepender de cada não beijo, cada não telefonema, cada não noite de insônia, cada não desespero, cada não entusiasmo, cada não carinho inesperado, indispensável, inevitável, imprescindível, cada não todas as palavras apaixonadas em qualquer língua do mundo. Ele vai se surpreender com a reviravolta, no começo, mas vai se conformar com sua nova condição de pequeno em seguida. E então vai seguir, cuidadoso e desastrado, na quase inútil intenção de conquistar o grande urgentemente."

Adriana Falcão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Leão encontrou Aquário...

 Aquário desejou sair de casa. Estava um pouco cansada da rotina de seus dias e, embora não procurasse algo novo naquele momento, também não descartava a possibilidade de nutrir uma estranha esperança.

Sentada à mesa de um restaurante japonês, ouvia vozes de pessoas a sua volta e logo percebeu que estava sozinha. Olhava o vidro molhado daquela janela fumê. Chovia lá fora.

Leão havia decidido não beber naquele fim de semana. As gotas do calmante prescritas pelo doutor Samuel pareciam fazer algum efeito. Seu corpo estava cansado. Sua saliva já meio acre dos desencontros da vida. Faltava descobrir novos sabores. Faltava muito pouco...

O telefone tocou. Era mais um convite, mais um. Seus amigos esperavam no mesmo bar de sempre. Mas Leão queria novidade. Mas Aquário queria novidade. E todas as pessoas tinham o mesmo rosto. E todas as pessoas tinham o mesmo rosto. E todas as pessoas, o mesmo...

Foi um encontro casual. Leão, finalmente, encontrou Aquário.

Pouco foi dito. Havia uma economia de palavras. Mas talvez o silêncio tenha despertado em Aquário a curiosidade de saber mais sobre Leão.

Foi mágico! Ar e fogo .

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

“Por onde andei?”

Muitas pessoas têm blog porque, de alguma forma, querem usar essa ferramenta com a finalidade de um diário online. Talvez esta tenha sido a minha idéia inicial também. Embora eu não seja apta à regra, ao compromisso de compartilhar as minhas subjetividades, sempre achei sedutor imaginar as sensações que as palavras escritas podem causar naqueles que as lêem.

 Não foi intencional minha ausência, só estava experimentando a vida. Rompi, finalmente, um cordão umbilical que me acompanhava há 32 anos. E é no momento de mudança que podemos mensurar aquilo que conseguimos durante a vida. Tudo coube no lado esquerdo de um quarto vazio. Meu tudo é pouco. E o pouco hoje já não me satisfaz. Quero mais, mais... Mas não (só) bens materiais. Refiro-me, sobretudo, a ter cada vez mais vontade de não perder a vontade, de não perder o encanto nos encontros.

E foi um encontro inesperado, meu quarto!  Uma estrangeira longe de seu país (pais). Eu queria me aventurar nas curvas geométricas do lugar. E me senti preenchida na imensidão daquele vazio. Só quem me conhece compreende o que se esconde atrás desse jogo de palavras.  

Não precisamos ir muito longe, atravessar uma ponte já pode ser suficiente para descobrir um mundo novo do outro lado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"Decifra-me ou te devoro"

Gosto de olhares que me dizem meias verdades.
Tudo que é inteiro tem uma metade.
Aquela escondida entre as quatro paredes do seu pensamento
É justamente a que me interessa.

A parte calada,
A parte fechada,
Aquela que não se revela.

Intriga-me esse jogo de pistas vagas
Onde ninguém se entrega.

Intriga e entrega...

Você não sabe o que eu quero?
“Decifra-me ou te devoro”!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eu gostava do  mistério que se escondia
atrás  do intervalo do seu silêncio.
Da curva perigosa que me fazia acelerar.
Mas depois de tantas noites de insônia,
Depois do pesadelo, eu digo que foi bom acordar.

Eu te falei que tinha medo.
Mas você um dia me fez acreditar.
E de tanto eu tentar fugir
eu me rendi
eu me entreguei
e eu me perdi.

E difícil saber a hora de parar
quando  se perde a noção do tempo.
Quando estamos longe.
Quando não há mais o que tentar.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A ponte engarrafada, os ponteiros que não deixam de girar no relógio da Central. A Rio Branco sempre cheia já nas primeiras horas da manhã.O café na mesma padaria, a passada de olho no jornal da banca enquanto espero o sinal abrir...assim começa o  meu dia a caminho do trabalho. Eu vou devagar, como quem faz hora, como quem não tem pressa de chegar. 
O elevador sobe com os mesmos engravatados de ontem e certamente os de amanhã. São todos iguais. Somo todos iguais? Espero que não...


"Um dia desse
Num desses
Encontros casuais
Talvez a gente
Se encontre
Talvez a gente
Encontre explicação"...

sábado, 11 de junho de 2011

"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar."

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 9 de maio de 2011

" Eu também talvez seja o personagem de mim mesma."

    Minha monografia está engasgada como soluço preso na graganta. Quanto mais eu leio , mais distante fico do lugar de onde já não sei voltar. Não consigo achar relevância no que quero dizer. Já nem sei o que quero dizer, me perdi e não consigo me achar.
   Em  Um Sopro de Vida, quando ela diz- "Estou, por exemplo, querendo escrever sobre uma pessoa que inventei(...)É difícil. Como separá-la de mim? Como fazê-la diferente do que sou?"-me coloca diante daquilo que suspeitava encontrar e que, talvez, seja o grande obstáculo que me impede de  dar um passo adiante. Onde termina a personagem e começa a escritora Clarice Lispector? Nunca fui uma leitora assídua de sua obra, mas o que percebo é que há uma linha tênue que separa realidade e ficção. É claro que, resumir seu trabalho como um projeto autobiográfico seria ,no mínimo, desqualificar todo seu poder de criação. Mas não consigo abandonar totalmente a ideia de que sua vida foi sim, de certa forma, material humano para concepção de suas personagens.
    O filósofo Sartre certa ocasião disse à Simone de Beauvoir que seu desejo era ser um grande escritor e para isso ele precisava experimentar o mundo. Nunca esqueci desta passagem e sempre repito quando estou numa roda de amigos, sentada numa mesa de bar, a minha sede( não de ser escritora), mas de observar o mundo, as pessoas. Acho que Clarice foi não só uma grande observadora dos outros , como de si própria. Por isso entendo quando ela dizia que escrever era uma necessidade, muito mais do que um projeto literário. Daí o fato de ela se sentir incomodada com esse rótulo de escritora. Escrever para ela era uma forma de tentar se descobrir.
   O meu trabalho será falar do olhar de Clarisse sobre o universo infantojuvenil. Cabe agora desobrir como vou costurar essa colcha de possibilidades, entre os contos e livros que abordam essa temática infantil em sua literatura.

                " ------estou procurando, estou procurando.Estou tentando entender".
                                                                                 A Paixão Segundo G. H.

    Acho que é isso. também estou tentando entender. É difícil!







domingo, 27 de março de 2011

Lembranças

   Quando o ônibus chegava à rodoviária,depois de quase oito horas de viagem, eu sempre fazia o mesmo caminho até o seu trabalho. Naquelas horas mortas quase não se via ninguém pelas ruas, meus passos eram largos. E você vinha fumando o Marlboro de filtro vermelho que eu tanto detestava. Mas era charmoso ver a fumaça dançar no ar, o modo como sua mão conduzia o cigarro até a boca. O Jardim Santa  Rosália já foi cenário de muitas histórias.  Gostava de gastar a madrugada no pub próximo a sua casa. Minha bebida era sempre a mesma: cerveja. Já você, adorava conhecer o gosto de  novos sabores; a cada encontro , uma bebida diferente.  
   Havia alí uma sintonia, meu jeito bossa nova misturava-se as batidas de sua música eletrônica. E nossos corpos dançavam ao ritmo da intensidade do desejo, da saudade, da vontade...
    Muitas vezes o dinheiro mal pagava a diária do hotel. Quase amanhecendo o dia, eu olhava seu rosto meio embreagado, seu sorriso doce me chamando de amor, me chamando para o amor. Se fomos felizes? Mas é claro que sim! Se seríamos hoje? Não sei...provavelmente não.


O tempo afasta pessoas . Mas ele talvez nunca seja capaz de apagar certas recordações. Onde quer que você esteja, feliz aniversário!


domingo, 20 de fevereiro de 2011


   Frida kahlo disse que se pintava porque era o assunto que conhecia melhor. Privilegiados são aqueles que, de fato, se conhecem. A cada nova descoberta, me vejo cercada de mais mistérios.Não sou a mesma, mas também não deixei de ser quem eu era. Refiro-me àquela de ontem e esta de hoje. Quem eu fui e o que sou. Não falo do que serei, porque esse tempo ainda não veio.
   Até onde eu penso que me conheço?Não tenho tantas certezas. Certa vez,uma amiga me recomendou fazer análise,para trabalhar o orgulho e a vaidade. Eu venho me observando mais e percebo que esses  defeitos não são só  características astrológicas de uma leonina. Mostrar-se não é sinônimo de ser fraco. Agora, esconder-se demais, isso sim é.
   Eu já perdi muito pelo jeito blasé. Ainda não consigo ser diferente...mas quero aprender.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Para Lóri...

Eu poderia falar tudo o que se espera ouvir de uma amiga nesse momento. Mas, às vezes, o silêncio cala nossa voz, como agora. Hoje  pensei em minha avó. Ainda sinto o gosto das lembraças de infância. Eu tinha muito medo de chuva e ventos fortes. Sempre que se aproximava uma tempestade eu pedia a ela para rezar...
Era tão mais fácil acreditar naquela época. E eu acreditava mesmo que ela seria atendida, porque pedido de vó mais parecia ordem.
Fui à igreja depois que saí do trabalho. Tenho andado com pouca fé,como pensar em ultrapassar os limites dessa nossa incapacidade de acreditar em algo que vai  além, depois do depois?
A Gisele disse que morrer é nascer ao contrário. O que acha disso Lóri?
Li  "a morte dos girrassóis". Penso que ficará mesmo bonita com um girassol tatuado em sua pele..


..." depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca"...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Do que você ainda duvida?
E o que já acredita?
Você sabe dizer se é feliz?
Quantas aspirinas já tomou?
E de quantas escadas se jogou?
Você bebe para esquecer?
E quando acorda, lembra o que sonhou?
Às vezes mente para não se comprometer?
Você prefere reta ou curva?
Sabe dizer quantas pessoas já amou?
Quando perde, chora?
Você decifra ou devora?
Seu segredo ficará sempre guardado?
Seu mergulho é raso?
Você vem ou fica?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ingênua madrugada
que dorme tranquila
ignorando o perigo.

Esquece daqueles que ferem
e são feridos.
Jogados no chão
tendo estrelas como proteção.

São flagelados da sorte
aguardam apenas a chegada da morte.
Lá estão eles.

Mãos trêmulas
corpos sujos
olhares distantes
sonhos roubados.

Perdidos nas esquinas
da cidade de pedra.
Lá estão eles, os ignorados.

Triste sina
desta vida sofrida.
Esperança enterrada
e há muito tempo perdida.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nos guardamos como segredos, por quê? Hoje decidi ficar nua, estou deixando cair a máscara que me tornava uma outra. O desejo de fazer o blog nasceu da necessidade de uma descoberta ou apenas da teimosia de uma procura. Quero viver de escrever emoções. Estou indo...nas esquinas do silêncio, busco um pouco a minha identidade.Escrevo palavras tímidas como uma criança sendo alfabetizada, que desenha as primeiras letras. Tenho um longo caminho a percorrer . Entre as boemias das nossas conversas, entre os olhares inquietos por respostas, fui convidada a ousar. E pensei: " só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa". Ainda não sei qual a melhor estrada a seguir, mas carrego em mim infinitas possibilidades de ser várias sem deixar de ser eu mesma. É, o ser humano é múltiplo, isso fascina.